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Out.Fest 2008 Encontros de Musica e Imagem do Barreiro
Bem vindos à quinta edição do Out.Fest - Encontros de Música e Imagem do Barreiro.

A programação deste ano deixa-nos muito satisfeitos e ansiosos. Artistas como o duo Flower/Corsano, David Maranha, Aluk Todolo, Ignatz ou Uton são pais de alguns dos melhores, mais interessantes e mais belos discos do ano passado. Sem exageros.

Miguel Afonso

A não perder também a exposição em grande formato "Retratos a preto e branco" da talentosa fotógrafa Vera Marmelo ou os dois documentários sobre jazz e heavy metal que vamos exibir em parceria com o Cine Clube do Barreiro. Mas há mais e é tudo precioso e essencial.

Por esta altura julgamos, esperamos, já não ser preciso explicar os objectivos do Out.Fest ou procurar legitimar a sua existência ou necessidade. Existem pessoas que têm a coragem, a fraqueza, o talento ou o desplante para porem cá para fora as coisas como elas são lá dentro. Transformam o inimaginável em real e isto tem o seu quê de metafisico. Costuma-se dizer do perigo que tem cheiro. Nós dizemos que se ouve. É disto que vamos tentando dar-vos conta.

Programa completo:

CONCERTOS

16 Maio AMAC (Auditório Municipal Augusto Cabrita) 21h30

DAVIDMARANHA
 David Maranha, uma das vozes maiores do underground dos nossos dias, apresenta ao vivo, numa rara ocasião, a versão em banda completa para o seu celebrado registo de 2007 "Marches of the New World" (Grain of Sound).
Disco imaculadamente desenhado, presta homenagem aos trilhos da música hipnótica ocidentalizados por Lamonte Young, Tony Conrad, Faust ou Yves Klein, apontando coordenadas e possibilidades de reorganização e concretização para a música actual que trabalha as propriedades hipnóticas da repetição e do transe. Nesta banda de autênticos luminários do psicadelismo contemporâneo, para além de Maranha no orgão Hammond, estará também João Milagre no baixo eléctrico, Bernardo Devlin (co-fundador, com Maranha, dos Osso Exótico) em órgão eléctrico e Afonso Simões na bateria. Autêntico tanque de guerra celeste, a fechar a primeira noite de concertos do Out.Fest 2008 com punhos no ar.

UTON 
Projecto de Jani Hirvonen, um dos mais activos membros de um underground finlandês que se tem vindo a constituir, ao longo da última decada, como um dos pólos criativos mais importantes e celebrados das novas linguagens musicais de todo o mundo, e do qual têm sobressaído nomes já essenciais como os Kuupuu, Kemialliset Ystavat, Islaja, Paavoharju e tantos, tantos outros. A música de Uton é uma celebração de todo o misticismo que possamos associar às florestas e lagos finlandeses: uma dança hipnótica de flautas, sinos, pianos, field-recordings, uma sinfonia sem princípio nem fim, uma via de encontro entre o espaço interestelar e os rituais pagãos de outrora. Uton é música holística, é uma nova new age, agora sem artíficios estéreis. É som e vida em estado puro, é folclore contemporâneo.

ONE MIGHT ADD
 O mais original e incomparável sound-system dos últimos anos está de volta ao Out.Fest. A dupla Alberto Arruda / Ruben da Costa é, hoje em dia, uma máquina rítmica missionária, visionária, que erige muralhas de som big-beat psicadélicas, delirantes, verdadeiramente estranhas, absolutamente recompensadoras. Trazem na bagagem o seu primeiro cd, "Sailing Team", editado já este ano pela Ruby Red, que tem dado que falar pelos meandros do underground internacional.

A PARTE MALDITA
 A Parte Maldita é um septeto que, apesar de recente, reúne nomes incontornáveis e até históricos da música livre em Portugal. Nuno Rebelo e António Chaparreiro nas guitarras, Abdul Moimême no saxofone tenor, Jorge Serigado no baixo, Rui Alves na bateria, e Miguel Sá e Fernando Fadigas, nas electrónicas, improvisam com uma energia reminiscente dos melhores momentos de um Miles Davis em fase eléctrica – por aqui há free-jazz, há psicadelismo, há funk mutante, há explosões rock de controlo incerto. A não perder.

PETER BASTIEN Solo de saxofone de uma lenda do free-jazz, residente em Lisboa há largos anos. O timbre é de excelência, a abertura também, e é um privilégio ver este músico a invadir e a ser convidado em várias formações, tanto enquanto saxofonista como enquanto percussionista ou só como free spirit, em declamações estelares da escola vocabular de Sun Ra.



17 Maio AMAC (Auditório Municipal Augusto Cabrita) 21h30

FLOWER / CORSANO DUO 
Uma das grandes marcas das músicas criativas do início do século XXI é, ao contrário das fusões jazz-rock dos anos 70, um encaixe amadurecido, profundamente miscigenado entre o free-jazz dos anos 60 e os vocabulários libertinos com alinhamento espiritual irmão. Vimos o rock, a psicadélia pan-genérica ou o minimalismo fundirem-se com os verbos de John Coltrane e Albert Ayler, criando novas avenidas lexicais de expressão não cartografada.
"The Radiant Mirror", álbum em duo de Chris Corsano (baterista; talvez o primeiro exemplo verdadeiramente acabado desta música total; colaborador de Thurston Moore, Joe McPhee ou Björk) e Mick Flower (aqui em shamisen, um banjo japonês; Vibracathedral Orchestra, Sunburned Hand of the Man), é um tratado fantástico de duas linguagens únicas de improvisação extraordinariamente concisas, laboradas e objectivas a fundirem-se por completo. Desenvolvendo uma narrativa de êxtase permanente, acabam por levar o grito eterno dos saxofonistas e sopradores dos 60s à sua consequência lógica – conseguem uivar para lá das possibilidades dos pulmões, e ficar lá em cima todo o tempo. Um concerto imperdível, para todos os adeptos da música livre.

IGNATZ 
Longe dos cabelos com brilhantina e da modernice provinciana dos apontamentos electrónicos, a espiritualidade dos blues, tal como nos foi dada a conhecer pelas mãos de Harry Smith ou Alan Lomax, lá vai sendo assegurada por músicos que ao invés do mero aproveitamento da escala pentatónica, ou do rosnar cool, recolhem das águas do Mississipi o húmus para a sua devoção. Paradigmático nesta mesma procura, e de regresso a Portugal depois de um belíssimo concerto no festival Where's the Love, o belga Bram Devens tem construído sobre o pseudónimo Ignatz um brilhante corpo volátil, onde camadas de efeitos se espraiam para invocar a alma de Blind Willie Johnson, resgatando às suas melodias ancestrais alimento para composições sonâmbulas e encantatórias.

ALUK TODOLO
 Alquimistas franceses de escola black metal e vivências kraut, os Aluk Todolo conseguiram desde logo no seu álbum de estreia "Descension" criar um pequeno monstro, que ainda não sendo capaz de convocar o Apocalipse, mostra-se já suficientemente assustador para que a sua presença no Out.Fest seja mais do que bem vinda e/ou necessária. Atirando para o fundo de um poço os fantasmas que assombraram os pesadelos dos This Heat, submergem-nos no lo-fi explosivo da sala de ensaios de qualquer cave bafienta norueguesa, e são tanto a contemplação das estrelas como a tão desejada hipnose pelo lado negro das artes mágicas. Nomes como "Woodchurch" ou "Burial Ground" são desde logo enfáticos do teor opressivo que alimenta o trio, mas que tal possa ser feito de modo tão envolvente, é mais uma prova de que o medo pode aproximar as pessoas.

CALHAU!
 Marta e Alves von Calhau têm vindo a constituir-se, no último par de anos, como uma das forças mais vivas e interessantes das músicas inclassificáveis em solo nacional. Através da manipulação de tudo e mais alguma coisa (brinquedos, electrónica quitada, found-sounds, gira-discos, etc...), pintam telas com igual componente de estranheza e de doçura, vão da música concreta à trip psicadélica em instantes, sempre com uma atenção e dedicação extremas a todos os detalhes sónicos e cénicos possíveis. Contam no seu currículo com várias colaborações, das quais se destaca a inenarrável experiência, realizada a meias com o comparsa António Contador, que foi "Nossa Senhora de Fátima Machine", quitanço extremo e sem lei da famosa (por uns meses) Buddha Machine, dos FM3.

AGAPE Duo de David Stackenäs (considerado por muitos como o mais interessante guitarrista sueco da actualidade e um dos mais criativos a operar na Europa, combinando um som acústico único com uma energia quase-rock percussiva. Colaborou com Jim O Rourke, Mats Gustafsson, Loren Connors, Günter Müller, entre outros) e de Martin Küchen (improvisador sueco com formação musical em flauta e saxofone, que integrou, entre outras formações, o Cirque Nouveau, com o qual viajou um pouco por todo o mundo). O primeiro registo deste duo foi lançado pela sempre presente Creative Sources, de Ernesto Rodrigues.


CINEMA

15 Maio AMAC (Auditório Municipal Augusto Cabrita) 21h30

IMAGINE THE SOUND 
(Ron Mann – EUA, 1981, 90min)
O primeiro documentário de Ron Mann ("Grass", "Comic Book Confidential") é um tributo eloquente a um grupo de artistas que ajudaram a forjar o jazz avant-garde dos anos 60.
O filme contém entrevistas articuladas e actuações exclusivas e pungentes dos pianistas Cecil Taylor e Paul Bley, do saxofonista tenor Archie Shepp e do trompetista Bill Dixon.
Desde o "Last Waltz" de Martin Scorcese que não era feito um documentário tão rigoroso e compatível com o seu assunto. A par com as actuações e as declarações destes quatro autênticos mitos da música no séc. XX, o filme captura a história diversa e as raízes de um movimento artístíco que teve tanto de afirmação musical e estética como de statement social e político. Um filme que é por muitos considerado "o" documentário do jazz.

22 Maio AMAC (Auditório Municipal Augusto Cabrita) 21h30

GLOBAL METAL

(Sam Dunn e Scot McFadyen – Canadá, 2006, 96min)

Neste filme, os realizadores Scot McFadyen e Sam Dunn partem à descoberta de como o género musical mais atacado no Ocidente – o heavy metal – teve um impacto cultural mundial, muito para além da Europa e América do Norte. O filme segue o fã de metal e antropólogo Sam Dunn numa viagem alucinante pela Ásia, América do Sul e Médio Oriente, à medida que explora os recantos menos conhecidos das cenas musicais emergentes mais extremas — desde o death metal Indonésio até ao trash metal Iraniano, passando pelo black metal Chinês. O filme revela uma comunidade de metaleiros a nível mundial que, mais do que absorver o metal do Ocidente, o estão a transformar, criando uma nova forma de expressão cultural em sociedades dominadas por conflitos, corrupção e consumismo em massa. O filme conta com actuações e entrevistas a bandas como os Iron Maiden, Metallica, Slayer, Sepultura, e muitos mais.

FOTOGRAFIA

15 a 24 Maio AMAC (Auditório Municipal Augusto Cabrita)

RETRATO A PRETO E BRANCO

(Vera Marmelo)

"Fotografar música passou de prazer a vício. Fotografar pessoas também.

As imagens aqui apresentadas têm entre um ano a um mês.

Todas estão agarradas a filme, filme a preto e branco revelado na escuridão de um dos quartos de banho da casa dos meus pais."

Biografia: Vera Marmelo. 12 de Dezembro 1984, Barreiro.

A fotografia surge como uma desculpa para estar mais próxima da música e das pessoas de que gosta. Assume que é uma nulidade nos aspectos mais técnicos da coisa e que os químicos já há muito largaram as provetas calibradas em pequenas unidades (sendo substituídos por garrafas de litro com marcas negras de marcador). Colabora regularmente com a netlabel Merzbau, revista Jazz.pt, Sérgio Hydalgo para o programa Má Fama, Daniel Barros - colectivo "Bom dia Lavradio!" e Cláudio Fernandes - colectivo "DPIY".

LIVE VISUALS

23 Maio Auditório da Biblioteca Municipal do Barreiro 21h30

P.MA + COCLEA

Pedro Maia, colaborador há já 8 anos do Festival de Curtas de Vila do Conde, tem vindo a desenvolver, desde 2004, o conceito de "live cinema", manipulando imagens em tempo real e em interacção com espectros sonoros. É autor dos projectos Stolen Images Inc. e P.MA, com os quais estabeleceu já colaborações com nomes como Thomas Brinkmann, Panda Bear (Animal Collective), Yasuharo Konishi (Pizzicato 5), Vitor Joaquim, Phoebus ou Peter Kruder.

Nesta edição do Out.Fest, apresentará um novo trabalho, baseado no conceito de feedback, num processo 100% analógico, que através de um loop de sinal vídeo pretende explorar uma reciprocidade óptica e electrónica para a criação de um momento visual que vá de encontro às ambiências sonoras criadas, ao vivo, por Coclea (alter-ego do guitarrista Guilherme Gonçalves).

OUVIDO RARO

16 e 17 Maio AMAC (Auditório Municipal Augusto Cabrita)

MIMI RECORDS
 Segunda convocação da instalação em que cabe ao visitante decidir os percursos de dez temas, um por cada artista convidado, e a forma como se intercruzam. 
A música que daqui sai é sempre diferente, sempre inesperada, sempre em aberto. Este ano, a curadoria cabe à Mimi Records, uma netlabel que promove o intercâmbio cultural entre Portugal e o Japão, na área das novas tendências da música electrónica (electrónica, idm, glitch, noise, digital hardcore, experimentalismo), e que escolheu para o Ouvido Raro temas de dez dos lançamentos do seu catálogo, que se aproxima já da centena de registos.
"Mimi" é a palavra japonesa para "ouvido".


MAIS INFO EM:

WWW.OUTFEST.PT.VU


  

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